"Sente-se sempre quando coisas que estão lá do lado de fora chamam a atenção da gente aqui dentro..."
Mathilda sabia que era assim, pois nunca brigou seriamente com alguma coisa dentro de si que também queria alguma outra coisa também dentro de si mesma...
Tudo era assim...baseado nos quereres externos como todos os outros mortais: alguém que desejava, então pouco sofria, alguma coisa que queria ter,logo, mais um pouco sofria, alguma crítica de um mundo dolorido que causava insatisfação...e então aí sofria novamente...
Mas não havia conhecimento de nada que queria de verdade, que não estivesse nos outros...
Até que...
...quando completou seus 29 anos, e agora começara a percorrer os tais 12 meses para completar os fatídicos 30, notou que havia sim, uma coisinha, uma fagulha, uma faísca de alguma coisa que habitava seu próprio corpo e convivia com sua parte mais bem explorada, que ainda queria muito...descobriu assim, se olhando e querendo muito ter isto nas mãos, embora estivesse lá dentro e andasse na rua com tudo isso a acompanhando...havia uma sensação estranhíssima de que o simples estar alí, compondo seu corpo...não era o suficiente para ser chamado de seu...ou de si...
...era como se carregasse algo que fazia parte de tudo, mas que ainda não havia conquistado a escritura para "ser" tudo...então como chamar-se de Mathilda, já que isto ainda não a era????
Complexo...como conquistar mares nunca navegados, sem saber por onde passar...sem saber navegar...sem nunca nem ter se lançado ao mar antes...nenhuminha vez sequer...
Chorou...copiosamente, doloridamente, surdamente, silenciosamente...chorou tanto que as lágrimas acabaram líquidas, mas ainda estavam alí, e então enxarcou o invisível...e se movia naquele mar de lágrimas invisíveis selvagens não materializado, com dificuldade...perdendo palavras, piadas, gracejos, inteligências...as informações não vinham...as socializações adormeciam logo nos primeiros minutos de tentativa...e o único acesso livre era o da aflição...que se aconchegava macia no seu coração e o fazia pesar...até soltar e cair no fundo da via do lugar ainda não explorado...shit!!
Medo, muito medo...de tentar seguir adiante neste projeto de desvendar os mistérios do intocável, e no fim das contas descobrir-se idiota, imatura, por não achar um tesouro qualquer sequer...medo de ir até lá, pegar tudo com as mãos e descobrir que a única parcela válida foi o suspense, o medo, e o sofrimento antecipado...porque no mais, era tudo igual, tudo carne da mesma carne, nem tão nobre, nem tão descartável...apenas carne...apenas a mesma coisa que precisava ainda mais de coisas externas para continuar existindo...insatisfeita...
FOTOGRAFIAS
4 meses atrás

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