segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

músculo

...e tudo se perde no clã das velocidades...

...ao desejar os semelhantes...


a existência perde a animosidade...

...intempérie...

o som ambiente, ao telefone, do outro lugar em que eu queria tanto estar...
...de repente virou a repugnante sala de análise do Doutor Burns...

¬¬

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ando tão leve que não consigo fugir de coisas pesadas...

...e constantemente a dor era tanta, que sentia vergonha de doer...doía tanto que já era corriqueiro...já não significava nada...já não incomodava o outro...e tudo estava tão franzido que também já não marcava a vida. só a testa...

passou a ser seu nome...suas rugas, sua beleza, sua magreza...a dor era isso, rugas, beleza, magreza...

...a beleza de morrer de anorexia de amor...a beleza de ver a barriga murcha, seca...incompleta de vida e pronta pra morte...a velha e boa morte da representação...

a morte de estar, a morte de representar...a morte do não reconhecimento...a morte do sentido, do significado, a morte cheia de injúria, de solidão...que de tão só...lentamente vai pelo ralo sem ninguém nem quantificar se houve de fato perda...como água desperdiçada...desvalorizada...na rachadura da calçada do bairro...

tudo aquilo agora era dor e a dor era tudo aquilo, e mais alguma coisa que sabia que morava em algum canto que também doía...mas existia sem nome...

não não leia isso...não não leia como se sacasse uma revista na fila da americanas...

doía mesmo...de sangrar sangrar descontentamento...de inutilizar a existência e causar cansaço...dor...impossibilidade de gozo por qualquer coisa...até pelo alimento...

era pouco...tentar o contrário andava sendo pouco e o valor parecia tão, mas tão pequeno...o esforço...desanimador...

hoje ouviu da irmã que ela até gosta de ver a "érmã" assim, pois dá vontade de ficar junto e cuidar como bebê...

mas a verdade é que não sabe nem ser um bebê...porque eles se incomodam com a promessa incrível de que o mundo só está começando...e incomodar-se é então naquela hora sinônimo de alguma coisa...conteúdo, recheio...

e no entanto os segundo pareciam parados...distantes da completude dos minutos percorridos entre um pensamento e outro da perda dos amores...o único conteúdo era a perda...desta coisa louca e intensa que é o amor...que tantas vezes de tão grande não pode estar nas nossas mãos...

que doidera...

quiéisso???

Porque escolher a perda ou ganhar a perda???Porque isso????

que angustiante...

lá estava ela...Mathilda, escrevendo, registrando para compreender depois...

quem sabe, antes de ir...

lobo

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Descobri que a lua nascendo existe,
mesmo sem você...
Me deu a certeza de que hoje é inevitável viver
E botar o Miles pra rolar de trilha sonora...
Pra essa lua que eu estou bebendo
Em pequenas doses fatais!!!
Quando eu sair pra rua já será tarde demais...
Nao há remédio depois pro que me mata agora!
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(João Bernardo)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

iyá

...então....que se for pra ir...que seja um caminho bonito...

...se for para ver outros planetas, que a descoberta seja doce, limpa, sábia...rica...inigualável...

...se for pra não estar, que seja para meu crescimento...e que estes verbos todos sejam ressignificados...

...se tiver que ter cor...que seja então vermelho, vivo de sangue, de nascimento, de pulmão respirando muito, de combustão de vida...e depois de chuva...raio e trovão na madrugada...calmaria...semente nova...

e que de tudo que ainda não aconteceu, se cumpra o imprescindível...o que não se vê, mas se sabe, e se quer...

Iyá,

se for pra ir, que não volte, mas que me convide para descobrir as maravilhas que você e só você me dá...

...se for para ser Deus, que eu fique só...até que eu também possa sÊ-lo...

...e que tudo que esmouresce um dia seque e alimente como fruta passa...

...porque tudo que é divino e que nos agrada...é inevitável...


E.

prontoacabou

então devastadoramente delicada,

a tristeza resolveu vir me dar um beijo...

escolheu uma tarde de reflexão, e cheia de sede de amor resolveu riscar um fósforo...

Isso, pensou ela...

minha sede se desfaz quando, do amor parte a confusão...

quando por amor, em nome de tanto amor, as pessoas ficam calvas...

engordam...

desnutrem-se...

rasgam as próprias histórias...

lavam com lágrimas as marcas mais bonitas...

esfregam os cílios...

retorcem braços,

atrofiam passos,

restringem beijos...

ressecam córregos...

matam os peixes...

...e os pêssegos...

e a natureza,

de tudo aquilo que era amor...

prontoacabou.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

carpinejar

Poemas de Um Terno de Pássaros ao Sul

Fragmento I

Pouco crescemos
no que aprendemos,
o sabor

de um livro antigo
está em jovem
esquecê-lo.

Eu alterei
a ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras

na estante.
Mudava os títulos
de endereços

em tua biblioteca
e rastreavas, ensandecido,
aquele morto encadernado

que ressuscitou
quando havias enterrado
a leitura,

aquele coração insistente,
deixando atrás uma cova
aberta na coleção.

Sou também um livro
que levantou
dos teus olhos deitados.

Em tudo o que riscavas,
queria um testamento.
Assim recolhia os insetos

de tua matança,
o alfabeto abatido
nas margens.

Folheava os textos,
contornando as pedras
de tuas anotações.

Retraído,
como um arquipélago
nas fronteiras azuis.

Desnorteado,
como um cão
entre a velocidade

e os carros.
Descia o barranco úmido
de tua letra,

premeditando
os tropeços.
Sublinhavas de caneta,

visceral,
impaciente com o orvalho,
a fúria em devorar as idéias,

cortar as linhas em estacas da cruz,
marcá-las com a estada.
Tua pontuação delgada,

um oceano
na fruta branca.
Pretendias impressionar

o futuro com a precocidade.
A mãe remava
em tua devastação,

percorria os parágrafos a lápis.
O grafite dela, fino,
uma agulha cerzindo

a moldura marfim.
Calma e cordata,
sentava no meio-fio da tinta,

descansando a fogueira
das folhas e grilos.
Cheguei tarde

para a ceia.
Preparava o jantar
com as sobras do almoço.

Lia o que lias,
lia o que a mãe lia.
Era o último a sair da luz.



...